terça-feira, 19 de maio de 2015

Heidegger, o delator premiado da vacuidade do discurso


       Se tem uma coisa que as vovós tradicionais são especialistas é a capacidade de detectar a vacuidade de um discurso. Seja ele fraudulento, falacioso, até mesmo aqueles discursos cheios de arabescos conceituais. As vovós à moda antiga possuem aquele feeling, aquele olhar de águia mas, sutilmente, guardam para si suas apreensões. Por quê? Porque a experiência de uma maternidade repetida lhe subsidia, num primeiro momento, a visceralidade de acolher dentro si um outro ser, num momento seguinte, a vovó salvaguarda a prole. Toda uma apreensão metafísica, pré teórica entra em cena. O amor e o cuidado irradiam, mas não somente na forma da vibração que acalenta. As velhas, boas e sábias vovós consolidam a realidade a seu redor apenas sob a égide do inefável, sob aquilo que não é possível ser dito.
         Mas tão inevitavelmente, quase num lamento, vivemos bombardeados por discursos repetidos e vazios. Martin Heidegger, filósofo alemão, embora com uma linguagem enigmática, inaugura o conceito ser-no-mundo como um meio de desvendar as aporias, e os discursos inócuos da modernidade.  Heidegger coloca que todo enunciado, palavra ou sentença, deve trazer em si uma carga de referências primordiais, para que seu significado evoque algum sentido. Exemplo: Shin Dong-hyuk, nasceu num campo de trabalho forçado na Coréia do Norte. Ele delatou a própria mãe que, juntamente com seu irmão, foi executada na frente dele. Em seu depoimento ele diz desconhecer o significado de "família", tampouco exprimiu algum remorso. Seu olhar era obtuso e distante. Sua realidade não compreendia a noção de amor, família, ética. Essas não foram suas referências existenciais.Ele apenas sabia que tinha que obedecer, 
         Então, quando nos depararmos com discursos e conceitos, apenas repetidos,  para descrever a realidade  tipo "a elite odeia os pobres", "a mulher é oprimida pelo burguês machista", procuremos na história se essas afirmações têm um significado real. Acontecimentos pontuais não podem ser categorizados como referências fundantes de todo um modo de ver, pensar e agir. 
Também não esqueçamos que o velho Marx, com sua famigerada revolução, quis romper com o pensamento grego e  a ética judaico cristã. O que vemos hoje, em termos de degradação ética e  pensamento superficial, pode ser facilmente detectado quando focalizarmos a atenção às nossas referências fundantes. Nesses tempos estranhos um pouquinho de Heidegger é tão essencial quanto um carinho inefável de vovó. 

  *Esse primeiro texto é uma homenagem ao Táxi Driver, leitor do blog "O Antagonista", que alegou que Heidegger era produtor da vacuidade do discurso. Foi o gatilho que deflagrou a confecção deste blog.

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